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O que se comemora quando se comemora uma mãe?

  • Foto do escritor: Instituto Emancipar
    Instituto Emancipar
  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Acho que a primeira lembrança que tenho de presentes dos Dias das Mães foi um liquidificador vermelho que meu pai, com muito esforço, deu para minha mãe. Eu devia ter uns oito anos, 1985, talvez. Sinceramente, não me recordo se ela gostou ou não, mas naquela época, creio que ele deve ter sido muito bem-vindo, uma vez que não tínhamos nenhum.


Depois se seguiu um tempo de presentear com panelas e utensílios de cozinha que chegavam como continuidade de uma função. Quando me tornei mãe, também vivi essa fase, marcada pela utilidade, porém depois de um tempo, vieram os perfumes, um sabonete ou um creme hidratante. Uma mudança, de fato, mas ainda direcionando para o que esperam de nós, mulheres. Por mais que esse gesto permitisse aparecer uma mulher para além do trabalho doméstico, era também sobre como somos reconhecidas e sobre quais desejos são considerados legítimos.


Seria ingênuo acreditar que um presente é só um objeto, afinal, ele pode ser portador de uma mensagem: o que se espera daquela mulher? De forma nada indireta, ele sinaliza o que essa mulher é autorizada a ser. E aí é que precisamos olhar em perspectiva: nem toda mãe ganha perfume, assim como nem toda mãe é vista como alguém que tem desejo.


Para compreender essa afirmação, é importante destacar que a maternidade não se distribui de forma homogênea. Ela é atravessada por raça e classe, organizando quem será reconhecida como sujeito de cuidado e quem será mantida como responsável pelo cuidado dos outros (Gonzalez, 2020). Esse padrão já foi bem explícito nos comerciais de Dia das Mães; hoje, sob o discurso da inclusão, se reorganiza de forma mais disfarçada. Porém, ainda pode ser notado no padrão do presente destinado, no tipo de homenagem, na ausência que é tolerada ou condenada.



Aqui vou precisar voltar a uma outra memória quando eu já ocupava esse papel social de mãe, uma memória que ainda causa alguma dor. Em um Dia das Mães em que meu filho, então com seis anos, ia cantar na escola após semanas de ensaio e eu não fui. Estava envolvida com meu trabalho e, naquele momento, trabalhar parecia mais importante do que estar com ele. Não porque era, mas porque, para algumas mulheres, não há escolha entre estar e sustentar. Há apenas a gestão do que é possível não perder, e aquilo pelo qual seremos responsabilizadas, seja uma apresentação na escola, seja o não conseguir estar junto quando eles adoecem.


Essa ausência na escola, durante um tempo, apareceu como um trauma; hoje é uma piada, mas não deixa de estar ali, demarcando uma ausência que não se restringia a esse episódio. A culpa não era por ser a mãe que não foi no evento, mas pela contradição entre ser a profissional que dá conta e a boa mãe e não conseguir estar em dois lugares ao mesmo tempo. Foi isso que me fizeram acreditar: que eu deveria ser capaz disso.


Essa cobrança por uma performance desconsidera que nem toda mãe pode estar presente e nem toda ausência é interpretada da mesma forma.


A ideia de uma maternidade universal, baseada em um instinto ou em uma essência feminina, não se garante quando olhada a partir das condições de vida. A própria noção de “mulher” e dos papéis associados a ela não é estável nem universal, mas produzida historicamente em contextos específicos (Oyěwùmí, 2021). Isso inclui o que se chama de “materno”.


Não por acaso, certas imagens de mãe funcionam tão bem, e o Dia das Mães, nesse sentido, não serve para celebrar todas da mesma maneira. Ele também seleciona quem pode ser homenageada como mãe, quais mulheres ocupam esse lugar utilitário e em que termos essa homenagem acontece.


Há, nesse ponto, uma repetição difícil de ignorar: a mulher é homenageada justamente no lugar em que continua sendo socialmente convocada a servir. E, antes de falar em humanização da maternidade, quais mulheres podem, de fato, viver uma maternidade que seja reconhecida como humana?

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