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A Invenção das Mulheres

  • Foto do escritor: Instituto Emancipar
    Instituto Emancipar
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

O que acontece quando tentamos explicar todas as experiências humanas com categorias que foram criadas em um lugar específico do mundo, com uma história específica de poder e colonização? Essa é a pergunta que guia o livro A Invenção das Mulheres, da socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí. Lançada originalmente em 1997 e publicada em português em 2021, a obra se tornou uma referência para quem deseja pensar de forma crítica a universalização de conceitos como sexo e gênero nas ciências sociais, no feminismo e na produção de conhecimento em geral.


Oyěwùmí parte da realidade da sociedade iorubá para mostrar que, antes da colonização europeia, o sexo biológico não ocupava o lugar central na organização social que ocupa nas sociedades ocidentais. Nas formas tradicionais de convivência, categorias como senioridade e papel social tinham mais peso na definição de responsabilidades, autoridade e vínculos. A lógica da divisão entre “homens” e “mulheres”, com os significados que conhecemos hoje, não fazia parte da estrutura social. Ela foi, segundo a autora, uma imposição do projeto colonial, que ocupou territórios e reformulou os modos de pensar e classificar as pessoas.


Ao contrário de muitas interpretações que têm sido propostas, essa perspectiva não propõe uma negação da existência de corpos sexuados ou de relações de poder marcadas por hierarquias. Ao contrário, Oyěwùmí afirma que o uso do sexo como critério central para organizar a sociedade constitui um fenômeno histórico-cultural, situado em contextos específicos, e não uma característica comum a toda a humanidade. Com isso, a autora chama atenção para o risco de interpretar todas as formas de vida a partir de parâmetros produzidos em matrizes eurocentradas, apresentados como neutros e naturais.



Nesse ponto, sua crítica alcança também parte das teorias feministas que, ao nomear a opressão das mulheres, podem acabar por projetar no “outro”, especialmente nas culturas africanas, categorias que não são nativas desses contextos. A figura da “mulher africana”, construída por muitas autoras ocidentais, teria sido, segundo Oyěwùmí, uma invenção moldada a partir do olhar colonial, que impôs classificações e sentidos baseados em experiências e códigos que não correspondiam às realidades locais.


Isso não significa relativizar a opressão. A autora não sugere que não existam desigualdades, violências ou exclusões baseadas no sexo. O que ela propõe é que essas experiências sejam compreendidas a partir de suas próprias formas de organização, vocabulários e estruturas de pensamento. Trata-se, portanto, de uma crítica à imposição de modelos explicativos que apagam a complexidade das sociedades que foram colonizadas e que seguem, até hoje, sendo lidas a partir de fora.


Ao afirmar que “a colonização introduziu um modelo de conhecimento que reconfigurou profundamente o modo como as pessoas passaram a se entender” (Oyěwùmí, 2021, p. 37), a autora chama atenção para o fato de que as formas como nomeamos as pessoas, os corpos, as relações e as hierarquias estão atravessadas por histórias de dominação e, por isso, precisam ser examinadas com cuidado. Essa análise pode ser desconfortável para quem está acostumada a pensar o feminismo como um movimento com bases teóricas já estabelecidas, mas é justamente esse desconforto que torna a leitura necessária.



Ao longo do texto, a autora foca em mostrar como o sexo e o gênero são mobilizados de formas diferentes em contextos distintos, e como a centralidade que essas categorias assumiram no Ocidente não pode ser generalizada para todas as culturas. A leitura que ela propõe não dissolve o corpo, mas o reinscreve em histórias e sistemas simbólicos que escapam à lógica moderna ocidental.


A maneira como seu nome é apresentado, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, também carrega sentido. Nas culturas iorubás, os nomes expressam pertencimento, ancestralidade e caminhos de vida. Ao manter a grafia completa da autora, reforça-se o compromisso com a integridade da experiência de onde ela escreve. O apagamento de nomes, quando feito para se adequar a padrões ocidentalizados, é mais uma forma de silenciar a singularidade das epistemologias que ela representa.

A Invenção das Mulheres não é uma leitura difícil, mas exige presença e um olhar cuidadoso, além de crítico. Creio que a autora não tem a intenção de entregar respostas prontas ou oferecer soluções simples, mas de ampliar possibilidades, propondo uma forma de olhar para o mundo que começa por questionar o ponto de partida das nossas perguntas. Para quem deseja pensar o sexo, o gênero, as culturas e as opressões de forma mais situada, cuidadosa e aberta à pluralidade, esse livro é um marco. Ele cumpre a missão de expandir os limites do pensamento sem abandonar a necessidade de compreender as marcas materiais da desigualdade.


Referência

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: fazendo um sentido africano dos discursos ocidentais sobre gênero. Tradução de Eliana Rocha. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.


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