Liberdade não é permissividade - Se a tempestade cessou, que o cuidado permaneça
- Instituto Emancipar
- há 3 dias
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“Eu quero, a bem da verdade / A felicidade em sua extensão”
Em 1986, a escola de samba Império Serrano cantava a liberdade como desejo coletivo. Aquele samba nascia num país que ainda reaprendia a respirar depois de duas décadas de regime autoritário. Quando se falava em felicidade “em sua extensão”, falava-se de direito, de futuro possível, de uma vida menos sufocada. O Carnaval, naquele contexto, tornava-se palco de um desejo que extrapolava a festa ou as fantasias; carregava uma reivindicação histórica por dignidade e liberdade.
Quase quarenta anos depois, continuamos desejando felicidade, e ainda bem! O desejo de cantar liberdade e alegria permanece. As condições para exercê-lo, contudo, se transformam, assim como os riscos e as pressões autoritárias assumem outras formas, mais difusas, porém igualmente reguladoras. Por isso, talvez seja necessário lembrar que felicidade não pode ser convertida em obrigação pública, nem em performance contínua de euforia.
Como manifestação popular e expressão histórica de resistência, o Carnaval tem seu lugar. Mas quando a celebração se torna imperativo, quando a alegria vira exigência moral, deslocamo-nos novamente para um regime de pouca escolha. Cuidar da saúde mental no Carnaval implica reconhecer que tanto a folia quanto a pausa podem constituir escolhas legítimas, atravessadas por limite, respeito e cuidado.
Afinal, estar e se manter bem é uma tarefa constante, que precisa ser reafirmada a cada dia. Em um cenário marcado por inseguranças, violências e instabilidades, priorizar algum grau de equilíbrio exige planejamento e compromisso com nós mesmas, e isso não costuma ser fácil. Precisamos lembrar que viver como se não houvesse amanhã não necessariamente ajuda a atravessar um mundo que já se apresenta acelerado e ameaçador. O desejo de felicidade permanece, mas precisa encontrar formas que não nos desorganizem ainda mais.
“Quero que meu amanhã seja um hoje bem melhor / Uma juventude sã / Com ar puro ao redor”
Sustentar-se sã, na forma como estamos organizados socialmente, depende de condições que ultrapassam o indivíduo. Pressupõe ambiente respirável, relações menos invasivas, menos atravessadas por coerções explícitas ou sutis. Saúde mental exige um ar feito de respeito e reconhecimento, e também uma concretude feita de condições mínimas de vida. Quando o ambiente se torna hostil, o psiquismo responde com tensão, exaustão e retraimento. Até mesmo a alegria pode se converter em ameaça quando imposta como obrigação.
No Carnaval, a folia pode funcionar como espaço de encontro, corpo em movimento, sensação de pertencimento, alívio por alguns dias fora do roteiro habitual. No entanto, sair da rotina também pode significar recolher-se, dormir mais, ler um livro, ir ao cinema ou simplesmente reduzir o ritmo. Entre dançar até o amanhecer e permanecer em casa reorganizando pensamentos, não há hierarquia moral. Um dos elementos que nutrem a saúde mental é a possibilidade de escolha consciente, apoiada na escuta do próprio limite.
Para que essa escolha exista, entretanto, há um percurso anterior: segurança material, condições de deslocamento, proteção mínima, acesso a espaços seguros. A experiência subjetiva não se desprende da realidade objetiva que a estrutura.
“Quero nosso povo bem nutrido / Quero paz e moradia”
Ao evocar “povo nutrido, paz e moradia”, o samba trazia à cena a dimensão palpável da dignidade. Falar de saúde mental sem considerar essas bases materiais empobrece o debate. Exaustão econômica, violência cotidiana e desigualdades persistentes produzem efeitos psíquicos que não se dissolvem com música alta, brilho ou álcool. Embora queiramos acreditar que sim, o Carnaval não suspende as estruturas sociais; acontece dentro, apesar e a partir delas.
Aspectos sociais como violência, abuso de substâncias e vulnerabilidades econômicas, entre tantas outras questões, ganham contornos ainda mais cruéis. A folia vira pano de fundo para uma realidade que se impõe a milhares de pessoas, como, por exemplo, as mulheres. A violência contra esse grupo tende a se intensificar em contextos festivos. Como se sabe, a cultura que associa festa à permissividade masculina e ao acesso irrestrito ao corpo feminino ancora-se em uma longa história de objetificação e desigualdade de poder. E, muito embora o consumo excessivo de álcool frequentemente opere como facilitador de condutas invasivas, a responsabilidade não pode, nem discursivamente, se deslocar para a bebida. Ela permanece com quem atravessa limites e ignora consentimento.
Nesse mesmo sentido, vale lembrar que o consentimento é a condição ética para qualquer interação. Quando esse fundamento é ignorado, o que sobra é a violação que, por sua vez, produz marcas psíquicas permanentes, para além da duração da festa. Pensar em saúde mental no Carnaval, portanto, implica reconhecer que a liberdade perde seu sentido quando transforma o outro em objeto e desconsidera seus limites.
“Me dá o que é meu”
Às vezes é angustiante precisar reiterar o que deveria ser evidente, mas, infelizmente, há direitos que precisam ser reafirmados o tempo inteiro. O direito de escolher estar na rua ou em casa; o direito de circular sem medo; o direito de dançar sem ser tocada sem autorização; o direito de dizer ‘não’ sem sofrer represália; o direito de retornar às nossas casas em segurança: todas essas são premissas fundamentais da convivência coletiva.
A saúde mental se organiza quando o sujeito não precisa violentar o próprio limite para corresponder à expectativa coletiva e quando o desejo individual não se impõe sobre a integridade de outra pessoa. O equilíbrio possível nasce dessa negociação constante entre desejo e responsabilidade.
“Se por acaso alguma dor / Que o doutor seja doutor”
Foliar, descansar, meditar: há sofrimentos que não se resolvem com euforia, assim como há alegrias que não anulam a necessidade de cuidado qualificado. Reconhecer vulnerabilidades, buscar ajuda quando necessário, interromper excessos antes que se tornem danos são atitudes de responsabilidade consigo e com o outro.
Carnaval pode e deve ser uma celebração da vida que se constrói na continuidade, na coletividade, nas relações que permanecem depois que o som diminui, na responsabilidade que acompanha cada escolha nossa.
“Cessou a tempestade / Dona liberdade chegou junto com a esperança”
O samba do Império Serrano entoado em 1986 me marcou porque se estrutura como um canto pela responsabilidade coletiva. A alegria pode ter caráter transformador quando protege em vez de expor, quando inclui em vez de objetificar, quando valida em vez de desqualificar.
Se a escolha for celebrar, que haja atenção ao corpo, às companhias, ao caminho de volta. Se a escolha for recolher-se, que não haja culpa por não corresponder à imagem de festa permanente que circula nas redes e nas ruas. Entre o batuque e o silêncio, os movimentos que ancoram-se na saúde mental consideram a coerência entre desejo, limite e cuidado.
