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A maternidade humanizada

  • Foto do escritor: Instituto Emancipar
    Instituto Emancipar
  • há 12 horas
  • 2 min de leitura

A maternidade humanizada não está disponível da mesma forma para todas. Portanto, a pergunta que ficou em aberto no texto anterior aponta para uma distribuição real de trabalho que tem endereço, custo, acesso e, sobretudo, condição.


O que se chama hoje de “humanização” costuma aparecer como um direito à escolha: decidir o tipo de parto e onde ele ocorrerá, definir a equipe, direcionar como conduzir o cuidado antes, durante e após o nascimento. Mas essa possibilidade de escolha não é universal, pois envolve acesso a condições materiais de tempo, dinheiro, rede de apoio, acesso a serviços, informações e reconhecimento social. Em outras palavras, depende de classe e de raça e quando se observa a história, é perceptível que trata-se de uma organização social que sustenta relações de poder.


A constituição do patriarcado esteve diretamente ligada ao controle da reprodução e à apropriação dos corpos das mulheres como recurso social e econômico (Lerner, 2019). Não é sobre a tarefa “mágica, pura, sagrada” de gerar vida, mas de regular quem poderia gerar, em que condições e sob quais normas. Com o passar do tempo, esse controle não desapareceu, mas se reorganizou para atender as demandas do sistema atual.


A maternidade foi estruturada como função social vinculada à produção e reprodução da força de trabalho (Federici, 2017). Isso ajuda a compreender por que, ainda hoje, o cuidado recai majoritariamente sobre mulheres e por que esse cuidado é, ao mesmo tempo, esperado, naturalizado e pouco sustentado materialmente.


Mulheres negras historicamente tiveram sua maternidade atravessada por políticas de controle, exploração e negação de direitos. Ao mesmo tempo em que eram responsáveis pelo cuidado dos filhos de outras famílias, o que frequentemente implicava menos tempo de cuidado com seus próprios filhos, tinham seu próprio direito à maternidade constantemente deslegitimado ou regulado (Davis, 2016). No Brasil, essa lógica se articula com a herança colonial, produzindo uma divisão racial do cuidado que ainda estrutura o cotidiano (Gonzalez, 2020).



É nesse ponto que a crítica decolonial tensiona o próprio campo feminista. Quando a maternidade é pensada a partir de um modelo universal, frequentemente branco, de classe média e com acesso a escolhas, ela invisibiliza outras experiências e reforça hierarquias (Espinosa Miñoso, 2014). A crítica é sobre a forma como o cuidado é apropriado e distribuído.


O mesmo se aplica ao debate sobre autonomia corporal. O acesso ao aborto seguro, por exemplo, é uma questão material, uma vez que a criminalização dele define quem pode interromper uma gestação com segurança e quem será exposta a risco de morte. Da mesma forma, a responsabilidade pelos métodos contraceptivos recai majoritariamente sobre mulheres, enquanto alternativas masculinas permanecem pouco desenvolvidas ou pouco utilizadas. Isso não se configura como uma escolha individual, mas como parte de como o corpo feminino segue sendo o principal alvo de intervenção e controle, enquanto o masculino pode se isentar de responsabilidades.


Diante disso, falar em maternidade humanizada sem considerar essas condições é restringir o debate. A humanização depende de quem pode acessar esse cuidado, de quem pode decidir, de quem pode recusar e de quem sequer tem essas opções colocadas. Para muitas mulheres, a maternidade ainda é vivida sob condições que não foram pensadas para serem humanas.

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