O que se sustenta quando se celebra uma mãe?
- Instituto Emancipar

- há 21 horas
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Se a maternidade não é vivida sob as mesmas condições para todas, também não será celebrada da mesma forma. O Dia das Mães mobiliza afeto, memória e reconhecimento, mas também delimita quais experiências podem ser vistas e legitimadas. Ao celebrar, se definem quais maternidades ocupam lugar de referência e quais permanecem fora desse escopo, muitas vezes sem reconhecimento e sem condições equivalentes de existência.
Essa delimitação aparece nas relações concretas em que a maternidade se constitui. Mesmo em diferentes configurações familiares, a expectativa de sustentação contínua do cuidado segue recaindo, com maior frequência, sobre as mulheres, sobretudo nos arranjos heterossexuais. O problema não está apenas em quem cuida, mas no fato de que esse cuidado raramente se converte em divisão proporcional de responsabilidade.
É a partir dessa organização que se estabelece um modelo de reconhecimento: a mãe valorizada é aquela que está presente, que sustenta o cuidado, que responde emocionalmente e que consegue dar conta das múltiplas demandas que lhe são atribuídas, não como possibilidade, mas como exigência. Esse padrão passa a funcionar como medida, deslocando a análise das condições materiais para um julgamento de desempenho individual.
Esse processo se torna ainda mais evidente quando observado a partir de raça e classe, uma vez que determinadas mulheres são mais facilmente reconhecidas como cuidadoras legítimas, enquanto outras são historicamente posicionadas em um lugar em que o cuidado é esperado, mas não valorizado, como no caso das mulheres que trabalham no cuidado de outras famílias e precisam delegar o cuidado de seus próprios filhos a outras mulheres, também precarizadas, situação que revela uma cadeia de responsabilização que não se converte em reconhecimento.
Essa dinâmica é tensionada no filme ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015). Ao evidenciar como o cuidado é feito por relações desiguais que permeiam o cotidiano, nos provoca: não se trata de qual das duas mulheres é melhor mãe, mas de como essa organização impede que qualquer uma delas seja reconhecida como tal. Essa estrutura produz uma maternidade impossível para ambas.
Ainda assim, recusar completamente a comemoração não resolve a tensão, como demonstram tentativas institucionais de substituir o Dia das Mães pelo Dia da Família, numa tentativa de ampliar a inclusão, mas que, na prática, apenas desloca a nomeação sem alterar as condições em que o cuidado é sustentado, já que a expectativa de que alguém ocupe esse lugar permanece.
Para muitas mulheres, maternar implica atravessar condições adversas, reorganizar a própria vida e sustentar vínculos em contextos pouco favoráveis, de modo que a celebração, nesses casos, não se refere a um modelo ideal de maternidade, mas ao que foi possível sustentar diante do que não estava dado, fazendo com que o reconhecimento, ainda que parcial, se vincule mais à continuidade do que à realização de um ideal.
Essa celebração, no entanto, não elimina a contradição que a sustenta, pois ela convive com ausências, culpas produzidas e desigualdades que não aparecem no gesto simbólico de comemorar, ainda que, naquele momento, essas tensões possam ser silenciadas.
Diante disso, o problema se confirma com o que precisa ser ignorado para que a celebração aconteça. Como, na celebração, também se definem critérios sobre quais maternidades serão vistas, quais serão valorizadas e quais seguirão sem reconhecimento, mesmo sendo indispensáveis.
É nesse ponto que a questão permanece em aberto: o que se reconhece quando se reconhece uma mãe, quais padrões se reiteram e qual é o papel daqueles que compõem a rede de apoio, geralmente também presentes na celebração, na existência concreta dessa maternidade que se homenageia?
Esse conjunto de exigências, ausências e formas desiguais atravessa diretamente a saúde mental das mulheres, produzindo culpa, exaustão e sensação constante de insuficiência. A cobrança por corresponder a um modelo de maternidade que desconsidera as condições de vida transforma limites estruturais em falhas individuais, fazendo com que muitas mulheres sustentem, em silêncio, um sofrimento que não é nomeado como tal.
Nesse cenário, reconhecer uma mãe não diz sobre o que se celebra, mas sobre o que precisou ser garantido para que essa celebração fosse possível, muitas vezes à custa de um desgaste que não aparece, não é compartilhado e tampouco é reconhecido.
Feliz Dia das Mães?



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